Anacronismo

A dificuldade de andar pelas ruas da cidade é interrompida por um cestinho colorido na beira do caminho e pelas vozes infantis cantando em uma língua desconhecida. As crianças são indígenas e se vestem parcialmente como tal, descalços, moletom cinza, camisetas de times de futebol mas também pintura no rosto e um cocar.


Um mulher indígena sentada com uma criança no peito dá o sinal com a cabeça quando o grupo de turistas se aproxima para que as quatro crianças que estão por ali brincando se juntem e entrem no personagem. Elas correm para a parede e começam a tocar e cantar, mecanicamente, sem nenhum entusiasmo músicas de sua cultura.


Nesse momento me senti mal pelo anacronismo de Paraty. De certa forma, esses anacronismos são o charme da cidade que os carrega até no nome. O fato de que a cidade tenha ficado abandonada pela perda da importância econômica e se descolado do presente para depois passar a ser obrigada a se conservar para deleite daqueles que ali passam ou são atraídos com sua exoticidade é um espelho assimétrico do mesmo fenômeno.


As crianças faziam de tudo para captar a atenção das pessoas e esperavam ansiosas por algum dinheiro ser colocado no cestinho colorido, não escondendo a decepção quando as pessoas apenas tiravam uma foto e continuavam seu caminho por entre as casas coloridas todas transformadas em estabelecimentos comerciais, estavam ali para ver e registrar o exótico e não tinham tempo a perder.


Eu estava com minha câmera na mão e pronto para fazer o mesmo, mas essa epifania me impediu de tirar a foto, a sensação que me veio foi que eu apenas roubaria algo e estaria compartilhando da mesma atitude que os impedem de retomar a vida de seus antepassados e mudar de acordo com suas regras e cultura.


O que via ali eram crianças do meio, vivendo em um limbo em que não estão nem plenamente inseridas e nem totalmente abandonadas, carregando em si um passado glorioso e uma cultura riquíssima, porém ali transformadas em caricatura, em algo conservado para atrair a curiosidade dos transeuntes e turistas trocando seu anacronismo por algum dinheiro.
Para deixar claro, não sou contra o turismo ou cidades históricas conservadas.

Também não acredito que indígenas tem que ser totalmente assimilados como algumas pessoas defendem, acredito que todos têm direito à cultura e que não cabe a nós interferência, devem ser livres para escolher seu caminho. A minha tristeza é ver essas crianças trocando fragmentos de sua cultura por dinheiro nas ruas enquanto poderiam estar vivendo em suas culturas de forma plena e digna, de acordo com seus princípios, história e cultura.

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