Espiral

Um garoto, louco também, descia todos os dias até o banheiro comunitário do prédio que era velho, paredes de cimento pretas de mofo e sujeira acumuladas: Cigarros, você quer cigarros, eu tenho cigarros. Naquele recinto você podia ver todos os dias jovens com excrementos escorrendo pelas pernas, desinfetante barato misturado a sujeira entupia o nariz e o nariz era atacado e logo vinha o enjôo. Tudo ali era impressionantemente preciso, todos os fatos se repetiam todos os dias, ou seria loucura da minha cabeça? Havia uma ala para os que estavam aptos a praticar trabalhos manuais. Não era um hospício, não, não era, não… não era assim que gostavam de ver aquele lugar ser chamados, era um hospital psiquiátrico. Um dia, andando , encontrei um sujeito grandalhão que estava lá havia séculos, ele estava fumando escondido: Se você contar para alguém eu te mato.

Não precisa, não precisa me matar, não. Depois daquilo ele sempre me olhava ameaçador, ou seria minha cabeça? Eu ficava em outra ala, mas sempre nos encontrávamos pelos corredores, tinha medo de encontrá-lo um dia no banheiro, sozinho. Minha compreensão é tão limitada, tão limitada. Me colocaram para fazer trabalhos de marcenaria e ele estava lá, estava lá, todos os dias, o tempo todo. O tempo passou e não mais temia ele, tinham dito que era coisa da minha cabeça, ele não parava de fazer barulhos naquele dia, não parava de falar, estava atacado mesmo, o professor perdeu a paciência, que era enorme, apesar de sua constante expressão de quem não gostaria de estar ali, era muito paciente, o professor. Eu também não gostava de estar ali, mas tinha que, era minha cabeça. Fora, disse ele, fora, vá lá para fora e espere a aula acabar, acabou a diversão para você hoje. O louco velho fumante não gostou, mas saiu…

A aula continuou, barulhinhos, babas, tudo tudo igual, menos ele, menos ele, eu brincava com a madeira, passava cola, juntava, depois vendiam tudo, artesanato, era terapêutico, eu tinha melhorado muito, agora aprendia, antes nada entrava na minha cabeça, repeti muitas séries na escola, sempre na primeira, não aprendia. Um dia me mandaram fugir, fuji um dia e me colocaram ali, ali mesmo, trancado. Me acharam todo sujo e rasgado, enrolado com meu cobertor velho, me tiraram o cobertor velho, gostava tanto dele, fiquei desprotegido aqui, sem meu cobertor, tinha enlouquecido eles falaram, era coisa da cabeça.

De repente todos os barulhos, as babas pararam, exceto um, que começou a gesticular e aumentou o barulho que normalmente fazia: Uh Uh Uh, ele fazia, e ria, ria. O professor estava de pé lá na frente da gente, olhando o trabalho, ficou intrigado: Pan, pan, pan! de repente. O cara voltou com um pedaço grande de madeira e pan, bateu nas costas do professor, e depois de novo e de novo e de novo e de novo. Muito sangue, a baba voltou em todos, todos gritavam, eu gritava, muitos riam, muitos choravam e o professor lá, desmaiado. O homem ficou lá pulando como um selvagem enlouquecido, como se cumprisse velhos ritos tribais naquela manhã. Ele sumiu, o professor sumiu, mas eu continuo preso aqui, até o fim dos tempos, preso na minha cabeça rodando e rodando, em eterna espiral.

2 comentários sobre “Espiral

  1. Um texto extremamente curioso! Fiquei pasmo, pois o que se gerou em mim, lendo, fez jus ao titulo. Espiral! minha cabeça girou, e girou um tanto! Incrível, sublime, amei o encerramento. Texto tão forte, quanto macabro. Bravo!!

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