Happy Hour

I

O alarme começa a tocar muito antes que Lucas estivesse pronto para acordar. O som começa discreto, porém insistente, até ficar insuportável. Com a cara ainda enfiada no travesseiro, sua mão procura por seu celular por entre latinhas de cerveja, um laptop aberto , lenços de papel, copos e embalagens diversas. Algumas coisas caem no chão enquanto ele, tentando desligar o alarme, acidentalmente aperta o snooze.

Como normalmente faz em dias úteis, e, algumas vezes, em finais de semana, se arrasta para fora da cama e, automaticamente, destrava o celular para poder passar os olhos pelas notificações do que aconteceu em suas redes sociais enquanto dormia. Fazia isso enquanto ia para o banheiro que ficava logo em frente à sua cama, no único quarto do apartamento em que vivia.

Mesmo morando sozinho ele mantinha o hábito de fechar a porta e, privado do mundo, ficar ali sentado com o celular na mão. Esse hábito vinha do tempo que viveu com Maria, namorada dos tempos de faculdade, quase esposa por indecisão dele e agora ausente por completo de sua vida.

Lá fora, através da pequena janela do banheiro, dava para ver que o sol ainda não tinha nascido e dava para perceber pelo barulho abafado das rodas dos poucos carros que passavam que tinha chovido ou talvez ainda chovesse. Esse fato o tirou das notificações por um instante, enquanto tentava ouvir o barulho da chuva, porém não ouviu nada. Por um momento sentiu-se nostálgico lembrando do agradável cheiro de chuva. Ausente naquela cidade, asfaltada e que cheirava alternadamente cheirava a lixo, poluição e esgoto.

Levantou-se e deixou o celular no canto da pia, começou a escovar os dentes em frente ao espelho fazendo o possível para não ver o reflexo de seu rosto.

Enquanto cuspia na pia e enxaguava sua boca, sentiu o cheiro rançoso dos resíduos de seu metabolismo e da miríade de seres que viviam suas vidas e morriam em seu corpo. Tinha ido para cama sem tomar banho ou mesmo tirar a roupa do trabalho, e ficou vendo em sequência os episódios de uma série da qual não tinha gostado e não se lembrava do motivo de ter começado a ver e de ter ficado, depois, buscando informações e lendo opiniões sobre a série até que adormeceu sem chegar a nenhuma conclusão.

Hesitou por um momento mas decidiu que tinha que tomar um banho. Removeu sua roupa e enquanto abria o box, seu telefone, que tinha ficado no canto da pia, começou, novamente, a tocar o alarme. Ele esticou a mão e apertou o snooze, agora de propósito, fechou a porta, ligou o chuveiro, fechou os olhos e encostou a testa na parede. A água escorria por suas costas e passava pelo seu corpo, indo embora pelo ralo, levando sua sujeira para se juntar a toda o resto de sujeira daquela cidade e deixando a sensação de calor para trás.

Uma imagem indefinida começou a tomar conta de sua mente e seduzi-lo, uma imagem formada por resquícios e fragmentos: de imagens pornográficas, de mulheres que tinha visto ao vivo ou em anúncios, revistas ou ficção, que viam do fundo de seu inconsciente e que se fundiam, lentamente tomando a forma de sua ex, Maria.

Sentia como se aquele ser amalgamado o envolvesse e tomasse e o direcionasse, irresistivelmente. Ele se deixou levar. Quase sem perceber sua mão já agia para satisfazer os desejos e as vontades de ambos. Se masturbava seguindo um enredo tão indefinido quanto a forma, era como se por um momento nada mais importasse ou mesmo existisse e ele já começava a temer o vazio que estava por vir dali a alguns instantes, pois mesmo as fantasias tendem a terminar da pior forma e deixar um vazio indefinido para trás.

Antes que pudesse chegar ao clímax o alarme tocou novamente e a forma desaparece, deixando para trás, por um último instante, a imagem do olhar severo de Maria, olhos raivosos movendo-se de um olho para o outro, a última lembrança que ela deixou para trás.

Aborrecido, ele fechou a torneira e saiu do chuveiro para desligar o alarme. Abriu o box e esticou a mão ainda molhada para apertar o botão, nesse momento o telefone escorregou e caiu ao chão. A julgar pelo barulho abafado o vidro tinha se quebrado. Ele fechou os olhos e abaixou a cabeça em sinal de derrota, suspirando longa e profundamente antes de se abaixar e pegar o telefone.

Ele não conseguiu apertar o botão para parar o alarme, insistiu por um tempo, as rachaduras incomodando, até perceber que tinha sangue em seu dedo e decidiu mudar de estratégia, segurando o botão de desligar apertando enquanto pega uma toalha e volta para o quarto, deixando o caminho molhado, abre o guarda-roupas e pega as roupas que vai usar, e se coloca, da melhor forma possível, nos trilhos de sua rotina. Antes de sair enfia o celular desligado no bolso, mais por reflexo do que por necessidade.

Antes de sair pela porta, ele pára para ouvir e se decidir entre uma capa de chuva e um guarda-chuvas que estavam ao lado porta. Lá fora, uma rajada de chuva e vento batem em sua janela com uma violência inesperada, como se quisesse remover alguma sujeira mais profunda que tinha falhado em remover ao longo da noite, desistindo em seguida para dar lugar ao silêncio das cidade grande: sirenes, buzinas e todo o caos de fundo, sem nunca ficar totalmente calado.

Sei guarda-chuva se junta a outros guarda-chuvas que se unem e se separam, colidindo em uma dança que, vista de cima, se parece com uma colmeia em que os alvéolos que a formavam ganharam vida e dispensaram as abelhas. Naquele lugar, a chuva ia acumulando a sujeira que não conseguia carregar em ilhas formadas por todo tipo de coisas, sacos de lixo pretos e azuis, sacolas de supermercado, embalagens, bitucas, pedaços de madeira e todo tipo de restos e detritos cercados de poças de água suja, que escondiam buracos e bueiros, criando um labirinto complexo e perigoso, quase intransponível até o metrô. Ele, porém, já fazia isso há tanto tempo que mesmo em um dia como esse conseguia passar sem prestar atenção em quase nada, era como se ele se desmaterializasse enquanto se deslocava para o trabalho.

De repente ele se torna opaco novamente e toma consciência de que seus pés estão além da faixa amarela no metrô com uma multidão disforme atrás dele e por reflexo tenta dar uma passo para trás, mas é impedido pela massa humana. Ele se lembra que qualquer movimento atrás dele o jogaria no trilhos ou até mesmo na frente do trem que chegava e não havia nada que ele podia fazer quanto a isso.

Era muito difícil não entrar em pânico. Esse pensamento já tinha causado enormes transtornos para ele, que costumava acordar de pesadelos no meio da noite no exato instante em que era jogado nos trilhos ou se via diante da luz do trem que vinha em sua direção. Ele tinha ataques de ansiedade quase incontroláveis quando isso voltava à sua cabeça. Fones de ouvido e música ajudavam a controlar essa sensação e não perceber mais esse fato, mas seu celular se recusava a responder ao toque e usá-lo através do emaranhado de rachaduras que haviam se formado em sua tela tinha se tornado perigoso.

Ouviu fragmentos de uma conversa sobre como alguém era injustiçada no trabalho e na vida e logo apontava os defeitos de pessoas que não mereciam o que tinham, não só do trabalho, do marido, dos filhos. Em outros tempos, ele podia se identificar com essas conversas, mas não se sentia mais injustiçado, o desejo de sucesso apenas tinha cessado, se é que um dia realmente existiu. Tentou parar de ouvir e mudar o foco para outra coisa; de repente começou a sentir os cheiros de perfumes, cítricos, amadeirados, doces se emaranhado com outros cheiros usados para esconder os odores humanos que se misturavam com o cheiro da estação e do trem: cheiro de fagulhas elétricas, metal e graxa. Ele notou um rato correndo ao lado dos trilhos e depois entrar em um vão e sumir, reaparecer mais a frente, parar por um momento farejando e olhando em volta e depois sumir de novo. O que teria ali para ele? Um animal vivendo em um lugar tão estéril, coletando restos e migalhas que caíam nos trilhos.

O barulho alto e metálico junto com o movimento frenético de cabelos e roupas anunciavam a chegada do trem. Fechou os olhos e respirou fundo, desejando que tudo desse certo. Finalmente, a porta se abriu e ele se deixou empurrar para dentro do vagão como se tivesse sido atingido por uma avalanche.

Dentro do vagão, sentiu-se aliviado e relaxou um pouco. Olhou em volta e todos pareciam perdidos em seus mundos particulares, vivendo ou sonhando com vidas longe dali. Alguns tentavam se equilibrar enquanto liam, olhavam o celular ou se maquiavam. Uma senhora , sentada, olhava para fora com o olhar vago e sem foco, ela carregava algumas sacolas de cores a tamanhos variados ao seu lado e no seu colo e parecia ser muito velha e muito pobre e não parecia ser capaz de carregar tudo aquilo ali, especialmente em um dia chuvoso como aquele.

Ficou assim por um tempo, olhando para cá e para lá tentando imaginar como era a vida daquelas pessoas que estavam ali, que entravam e que saíam do vagão. De repente, sem saber como tinha acontecido, estava olhando no fundo dos olhos, muito azuis, de uma moça que estava sentada se maquiando em um banco bem à sua frente e tinha, subitamente, levantado o rosto e olhado diretamente para ele. Ela fez uma cara de incomodo e ele sentiu seu rosto queimando enquanto desviava o olhar para o chão. Pediu desculpas baixinho e instantaneamente lembrou-se de Maria e como ela odiava que ele pedia desculpas o tempo todo.

II

Mesmo não tendo parado na máquina de café, ele chegou vinte minutos atrasado. Luciana, sua líder de equipe, estava sentada em sua estação de trabalho com o laptop aberto em uma caso que ele estava trabalhando nos dias anteriores. Ele parou e ficou ali um pouco, atrás dela, sem saber o que fazer. Seu cabelo preto, liso e sem graça caía por cima dos ombros retos e descia pelas costas levemente curvadas para frente para ver a tela, essa postura passava a impressão de cansaço e velhice, como se o peso de todos os problemas que carregava a tivessem envelhecido precocemente.

Ele tentava tomar coragem para pedir licença quando ela percebeu sua presença e olhou para trás, lenta e controladamente, causando o máximo de desconforto possível.

“Bom dia, Lucas, tem uma dispute aqui que precisa de atenção ASAP, é um cliente grande e eu esperava que você tivesse terminado esse caso ontem.”

Uma das coisas que ele mais odiava era a forma como ela misturava inglês com o português, sua pronúncia pedante e afetada, a língua no meio dos dentes, como se quisesse deixar clara sua educação privilegiada e sua atenção aos detalhes.

“Eu tentei, terminar, eu saí bem tarde ontem, mas não consegui finalizar, infelizmente.”

De fato, ele tinha saído tarde, mas tinha ficado conversando por um bom tempo com o pessoal de TI do turno da noite. Antes ele ficava navegando na internet, esperando o número de pessoas indo embora diminuir e tomar coragem de ir embora, mas agora que barraram os vários sites da internet que ele costumava usar para passar o tempo quando tinha que ficar e cuidar de casos ‘urgentes’, ele tinha achado outra forma de passar o tempo ali.

“OK. Dê prioridade para isso agora e, por favor, evite chegar atrasado, passa uma imagem horrível para o time, você tem que dar o exemplo.”

Lucas olhou em volta e não viu ninguém, o que tornou a frase mais sem sentido do que ela soaria normalmente. Ele reviu em sua mente ela dizendo ‘OK’, a forma como seus lábios formavam a letra ‘O’ que se estendia por um tempo surreal antes de cair na consoante e fechar a mensagem com um ditongo nasal, ‘eei’.

Sempre que ela falava, ele evitava seus olhos, sempre vermelhos, como se nunca dormisse direito e contrastavam estranhamente com seus olhos verdes, emoldurados em um rosto de pele alva cortada de veias azuladas de quem nunca toma sol.

Eles tinham entrado na mesma época e na mesma posição, vindos da mesma faculdade, apenas estudando em cursos diferentes. Ele tinha começado direito e acabou se formando em filosofia e ela tinha feito psicologia, porém, como ela disse no primeiro dia, ela tinha pensado muitas vezes em mudar para administração mas nunca tinha tido coragem. Não era o tipo de pessoa que faz coisas por impulso e mudar algo onde tempo já tinha sido investido era muito difícil. No início eles se deram bem, almoçavam juntos e encaravam aquilo ali como temporário. Conversavam sobre livros e filmes que tinham lido e visto e sobre personagens folclóricos da universidade.

Mas não demorou para começaram a se afastar, e só bastou um dia de convite de almoço não correspondido para que o costume morresse totalmente. O tempo foi passando e a atitude deles se cristalizava com relação ao trabalho. a relação se tornou puramente profissional e, na visão dele, se afastaram porque ela teve o comprometimento de jogar o jogo que ele jogava com relutância. Quando ela foi promovida a líder de equipe ele sentiu um sentimento complexo que ele não conseguia definir, não sentiu alegria, mas um tipo de ressentimento por ter ficando no mesmo lugar enquanto ela mudava pelo menos alguma coisa de sua vida, enquanto ele se contentava com suas pequenas rebeldias para tentar afastar a sensação de que vivia dias exatamente iguais que iam se diluindo e se misturando em sua memória, ecos dos dia anterior, que iam se passando até que fosse como se nunca tivessem existido, tratamento homeopático sem a capacidade de curá-lo ou deixá-lo morrer de vez, mantido pela própria esperança de cura.

Ela fechou o laptop, levantou-se lentamente como se ainda pensasse se tinha que dizer algo, mas não disse, apenas saiu andando, até que se finalmente se lembrou e parou antes de sair do corredor.

“Ah, Lucas, confirma com o pessoal quem vai no happy hour hoje, seria legal que todo mundo fosse,” terminou com um sorriso forçado, tentando demonstrar que estava realmente alegre com o evento.

Mesmo quando ela tentava ser espontânea ele achava que soava falso e corporativo demais.

Happy hour?

No momento que ele disse isso lembrou-se do que era e sentiu-se idiota por ter esquecido. Ela olhou para o teto e sua expressão mudou para um desprezo mal disfarçado.

“Você esqueceu? Hoje tinha fala da gerente regional e, infelizmente, tive que perder por conta desse caso urgente, parece que até o site lead tá lá agora, foca nesse caso pra terminar logo senão vamos ficar presos aqui hoje até tarde. Não quero perder o all hands depois do almoço e aposto que quer ir no happy hour.”

Ele notou que havia mágoa real em sua voz por ele ter se esquecido de que aquele dia era especial. Como alguém podia levar esse tipo de coisa a sério era um mistério para ele, ainda mais ela, que um dia compartilharas conversas sobre tantas coisas interessantes.

Ele abriu o caso, pegou o telefone e começou a trabalhar para resolver o problema, não era nada de outro mundo, so precisava de um pouco de foco. Depois de algum tempo, viu que cada um estava voltando para seu lugar.

O primeiro era André, o mais antigo da equipe, que religiosamente seguia a regra do mínimo esforço em tudo e tentava ao máximo fazer colar uma imagem de sonso para que o deixassem de fora de qualquer trabalho importante.

Junto com ele, conversando e rindo alto, vinha Vanessa. Alta, jovem e muito bonita, ela gostava de falar que tinha modelado e que ainda sonhava em retomar essa carreira, apesar de não ser exótica o suficiente. Ela sempre deixava à mostra as tatuagens que cobriam totalmente um de seus braços e tinha uma tendência a usar sua aparência para conseguir que outros fizessem coisas que normalmente não fariam por ela e compartilhava com André a idéia de que se ficasse na periferia não seria notada quando precisassem de alguém para resolver problemas complexos com clientes. Aquele dia era um dia importante para ela, apesar de dizer que não se importava com aquele emprego, sempre ficava muito nervosa pois ainda estava com contrato temporário e era nesse dia que anunciavam as efetivações.

Por último, vinham Sandra e Thaís, caminhando juntas e rindo, e, um pouco atrás, vinha Vilma, a gerente regional, conversando com Priscila, que tinha se juntado à equipe fazia três meses, também como temporária, mas sua dedicação e ambição já tinham colocado ela no radar das lideranças. Priscila sempre que podia tentava conversar com eles e ficou conversando com Vilma até que esta foi para sua sala. Quando Priscila viu Lucas pareceu surpresa.

“Lucas, eu não vi você na apresentação, onde você tava?”

“Não fui, tenho um caso para terminar ‘ASAP‘”, ele disse imitando sem querer a forma com que Luciana falava.

“Ah, que pena que perdeu, foi muito legal, as apresentações foram muito boas e o—”

“Sim, eu imagino, deve ter sido excelente, foi uma pena mesmo.”

Os olhos de Priscila congelaram redondos como sua boca, aberta no meio do o, e ficaram assim por um tempo depois da interrupção de Lucas enquanto ela decidia se terminava a frase ou não. No final ela apenas fez um sorriso forçado e sentou-se em sua mesa, colocou o fone e foi aumentar sua produtividade já excelente.

Ele imaginou como deveria ter sido as apresentações sobre o futuro da empresa, vestir a camisa e como inovação era importante, temas que, de alguma forma, se repetiam em todos os trimestres, apenas mudando ligeiramente de forma. Ele ficou esperando todos chegarem aos seus lugares, respirou fundo, se levantou e disse:

“Pessoal, a Luciana pediu para confirmar quem vai no happy hour hoje à noite, quem vai? Vou passar a lista pra ela.”

“Eu não vou, tenho que cuidar dos meus baixinhos”, disse Sandra rindo com sua risadinha que consistia de uma sequência de sons agudos disparados em uma sequência rápida e cortante. Ela nunca podia ir pois tinha que cuidar do filho e do marido, que era o tipo de pessoa que não gostava de chegar em casa e não ter o que comer. Ela era a única pessoa do time que estava perto dos cinquenta anos e era o pessoa que mais fotos tinha de sua família espalhadas por seu espaço de trabalho, especialmente de seu filho, em várias fases da vida e, obviamente tinha sua vida fora dali, com destaque para seu filho que tinha uns dez anos de idade e, nas fotos, estava bem acima do peso, como todos em suas fotos, incluindo ela, mas sempre com sorrisos enormes e que pareciam um pouco forçados.

Thaís, que era sempre extremamente educada e profissional, sempre que podia fugia de André e Vanessa e, talvez por conta disso, disse que iria só um pouco, ela também não bebia por motivos religiosos e disse que o noivo iria buscá-la as sete horas pois tinham um ensaio de casamento para ir. Seus assuntos prediletos eram o futuro casamento, o noivo e seus planos de lua de mel, casa e futuros filhos e falava sobre isso sempre que o assunto não era trabalho.

Os outros todos confirmaram. Vanessa e André fizeram uma piada sobre beber até cair as custas da chefia e brincaram que nada que acontecesse depois da primeira cerveja seria lembrado, “tudo que acontece no bar, fica no bar, haha.” Novamente ficaram rindo por um bom tempo.

Como em geral faziam, foram todos almoçar juntos no refeitório da empresa. Tentaram evitar o assunto trabalho por um tempo, falando da comida, do clima e do que andaram assistindo ou usando em seus celulares. Evitaram até que Priscila perguntou se Lucas tinha terminado o seu caso.

Ele respirou fundo e disse, contrariado, “Quase, tá praticamente terminado.”

Antes que Priscila pudesse responder, Vanessa disse, “Não terminou então, como você tá aqui almoçando? Volte lá agora e termina ‘ASAP’, haha”

“Nossa, mano, a Luciana se tornou uma mala sem alça, né? Ela realmente leva jeito para ser chefe, nunca imaginei que ela seria assim quando chegou, virou uma puxa saco sem tamanho, não larga do saco do Vilmão, deve estar arrastando no chão já”, disse André, que continuou, “estou aqui há quase uma década, esse tipo de pessoa não aguenta, não, uma hora surta.”

Dava para ver nos olhos de Priscila que ela ficou sem graça com o comentário, porém ela ainda evita entrar em conflito com as outras pessoas da equipe sempre que podia e somente abaixou os olhos para o prato, contrariada, e voltou a comer. As pessoas sabiam que ela se importava com o que falavam da empresa e da chefia e que ela valorizava aquilo tudo e projetava uma carreira ali, porém, talvez por isso, a tratavam como café com leite e não a levavam muito em consideração, especialmente Vanessa e André.

Lucas ficou um pouco constrangido por ela e se lembrou do seu primeiro dia, quando ele e Luciana chegaram para trabalhar, como eles se sentiam assustados diante da imensidão daquela empresa. Luciana e ele eram como dois pequenos animais perdidos em um labirinto interminável. De cara André se aproximou deles para servir de guia e azedar sua atitude com relação àquele trabalho e, talvez seja aí que ele tenha divergido com Luciana, ela, apesar de não contar em ficar ali para sempre, tinha uma atitude mais parecida com Priscila, não gostava de falar mal ou ouvir outros falando mal de algo que ele dependia e, de certa forma, até gostava.

“Não acho que ela é má pessoa, um pouco workaholic demais, tensa demais, sei lá,” disse Lucas.

“Eu acho que ela precisa de uma coisa na vida dela,” disse Vanessa, fazendo um gesto com as duas mãos paralelas se movendo para trás e para frente.

Sandra, que até então estava quieta, parou de comer e levantou os olhos e deu sua risadinha, meio envergonhada com o comentário, enquanto Priscila e Thaís se olharam com uma expressão de desprezo e começavam a falar sobre o casamento de Thaís, que agora estava muito perto.

André aproveitou o assunto casamento e emendou, “ah! Mas ela tem o noivo dela, lá, certo? Será que ele não dá no couro? Essas pessoas quietinhas são as mais pervertidas”

“Ela tem o anel de noivado no dedo faz um século, mas ela deve ser daquelas que só transam depois do casamento, o cara deve ficar indo atrás de prostitutas”, respondeu Vanessa.

Thaís, que também era noiva há um bom tempo, ficou encarando Vanessa e parecia furiosa com o comentário. Ela só conseguiu vocalizar um “aff” abafado e perguntou se Priscila queria ir. Priscila respondeu que já estava terminando e até mesmo Sandra disse que ela iria com elas. Sandra nutria uma certa gratidão àquele emprego. Ela tinha ficado desempregada um bom tempo, apesar de falar inglês fluentemente e de ter talento para falar com pessoas, o que ela definitivamente adora, por isso, raramente reclamava de algo.

Depois de um silêncio constrangedor, novamente André e Vanessa se olharam, fizeram o mesmo gesto que Vanessa tinha feito antes e ficaram rindo como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.

André olhou para Vanessa e disse: “É hoje, hein?! Hoje você é efetivada, Van, eu tenho certeza. Eu sinceramente não sei porque deixaram pro último ciclo. Já vi acontecer, mas é meio ridículo isso, você é a pessoa com o melhor trabalho no time, não iam ser loucos de te deixar escapar.”

A expressão de Priscila e Thaís enquanto olhavam uma para outra dizia o contrário, as duas se levantaram e Sandra também começou a pegar suas coisas, e Lucas ficou esperando que todos se levantassem.

Vanessa, por fim comentou, “Não sei não, não confio naquela vaca da Luciana.”

“Nossa, Van, eu acho que vai dar tudo certo”, disse Sandra, sempre conciliadora.

André fez outra piada percebendo o clima que tinha ficado tenso e essa foi a deixa para todos voltarem ao trabalho.

No meio da tarde, Luciana e Vilma, chamaram a equipe para a parte de fora do prédio para o ritual corporativo. Cada gerente geral chamava uma a uma as equipes que reportavam para eles para que fossem feitos os anúncios. Os anúncios de vários times eram feitos ao mesmo tempo e, no caso de Vilma, ela gostava de fazer isso perto da entrada, onde ficava o logo da empresa escrito em letras enormes.

Todos fizeram ficaram em pé em um semi-círculo, com Vilma e Luciana em frente. Depois de um discurso breve de Vilma, ela passou a palavra para Luciana para que ela começasse. Ela primeiramente chamou Thaís e falou sobre sua contribuição à equipe, sobre sua atitude positiva e disponibilidade e, por fim, anunciou sua promoção. Todos bateram palma até que Vilma fez um gesto que queria falar.

“Eu gostaria…”, ela começou, “gostaria de reconhecer a dedicação e o comprometimento de uma pessoa que já está conosco há muitos anos e que serve de exemplo para todos nós,” ela fez silêncio para uma pausa dramática e continuou, “vamos todos parabenizar Luciana que deixa de ser líder de equipe e agora se torna gerente dessa equipe e assume também as áreas de contratos e faturamento.”

Ela começou batendo palmas e esperou que todos a seguissem, fez um gesto com a mão para que parassem e disse, “Parabéns para você também, Thaís, eu, infelizmente preciso ir resolver algo urgente antes de chamar a próxima equipe, mas deixo vocês em boas mãos.”

Luciana, enquanto batiam palmas, estava bastante sem jeito, parecia uma criança com vergonha por estarem cantando parabéns para ela e ser o centro das atenções. Apesar do sorriso tímido, havia algo estranho em seu olhar, como se ela, no fundo, não estivesse de todo feliz com aquilo.

Agora chegou a hora de anunciar as efetivações. Como só tinha uma vaga na equipe e tínhamos duas temporárias e como era muito raro alguém não ser efetivado no final do contrato, todos esperam o nome de Vanessa, apesar de seu comportamento, pois Priscila estava praticamente começando e poderia esperar algum tempo para que surgisse uma vaga para ela. Luciana começou a tentou fazer um discurso sem jeito, no estilo da Vilma, e, por fim, anunciou a efetivação da Priscila.

Em vez de bater palmas, todos ficaram olhando para a Vanessa que ficou parada ali com os olhos arregalados e pálida. Ela parecia que ia dizer coisas terríveis, mas ela começou a chorar e saiu correndo. O André fez um comentário baixinho, que ninguém compreendeu, já se virando para ir atrás dela.

“A decisão não é só minha—”, disse Luciana baixinho, tentando se justificar. Ela parecia estar próxima de chorar, mas cumprimentou Priscila, bateram palmas e finalizou chamando todos para voltarem para suas mesas.

Enquanto segurava a porta para os outros passarem ele viu André abraçando Vanessa perto de uma coluna, escondidos na sombra, ela parecia estar soluçando e chorando muito. Ele se sentiu mal com aquela história toda e com tudo que acontecerá naquele dia, tudo aquilo era como um teatro do absurdo que era montado regularmente para cumprir certos rituais e ritos de passagem do tempo. Infelizmente ele mesmo não conseguia se libertar daquilo ou fazer qualquer coisa para mudar aquilo.

Vanessa nunca voltou para dentro. André pegou as coisas dela e desapareceu por mais um bom tempo. Depois voltou sozinho, com os olhos vermelhos. Parecia bastante abalado. No resto do dia, todos trabalharam em silêncio, foram para a apresentação do All hands e voltaram novamente calados. André tinha perdido sua parceira de piadas e os outros tinham perdido o clima de comemoração.

Luciana chegou no final do dia e decretou que estavam livres para ir para o happy hour.

“Vamos celebrar?”, ela disse, “podemos chamar um táxi.”

Sandra pegou suas coisas e deu tchau, abraçando todo mundo enquanto os acompanhava até o ponto de táxi. Os dois carros parados ali eram exatamente o que eles precisavam. O André pulou no banco da frente do primeiro táxi sem falar nada e o resto seguiu atrás enquanto Lucas dava um último abraço na Sandra.

Ele parou e viu que todos menos Luciana estavam no primeiro táxi.

“Acho que alguém mais precisa ir no outro táxi”, disse Luciana. Enquanto ela falava isso, a Priscila já estava saindo para ir para o outro carro, perguntando se era necessário que ela mudasse.

“Não, pode deixar, eu vou, podem ficar aí.”

Priscila fez um olhar de decepção enquanto voltava para sentar ao lado da Thaís.

“Acho que nós vamos juntos, quer ir na frente?” ela perguntou.

“Não, eu vou atrás com você.” Ele preferia que ela tivesse escolhido ir na frente, mas como ela ofereceu primeiro, ele preferiu não aceitar.

III

Durante o caminho, depois que ela disse ao motorista o endereço do lugar, não se ouviu mais a voz de Luciana, que ficou totalmente concentrada em responder emails pelo celular e ele, sem alternativas, conversou um pouco com o taxista, que estava bastante preocupado com os jovens, com a política e com os comunistas. A chuva voltou a cair forte naquele momento e ele ficou grato que o taxista passou a prestar mais atenção no caminho e ele podia simplesmente ficar olhando pela janela e sair daquela conversa.

O táxi encostou na calçada em frente ao bar, ela pagou e ele saíram caminhando na chuva, ela segurando a bolsa em cima da cabeça e andando devagar por conta do sapato de salto que estava usando. Apesar do impulso de correr e sair da chuva, ele se manteve ao lado dela, por um tempo, que pareceu, uma eternidade.

Os outros já tinham chegado e estavam esperando na mesa que estava reservada para eles. Eles se juntaram ao grupo e começaram a falar do trabalho. Novamente felicitaram Luciana, Thaís e Priscila pelas promoções, das apresentações do dia e do que vinha pela frente, e ninguém mencionou o assunto Vanessa, nem mesmo André, que estava anormalmente quieto e antes mesmo de chegar a porção que pediram para começar já estava na segunda cerveja.

Quando os pratos chegaram, Luciana, cumprindo seu dever, fez, novamente, um pequeno discurso sobre se celebrar momentos importantes da vida e agradeceu a todos pela dedicação. Ela disse que a ocasião pedia um vinho, que, quando chegou, ninguém mais parecia querer. Para acabar com a tensão que estava sendo gerada pelo garçom parado ali com a garrafa aberta esperando que alguém mais fosse servido, Lucas estendeu o taça e deixou que ele a enchesse. Com o vinho, ele começara a se sentir melhor e estava, aos poucos, entrando no clima de celebração, especialmente agora que estavam todos rindo e brincando, agora falando de coisas engraçadas do trabalho em vez de trabalho em si.

Não demorou muito tempo para o álcool também fazer efeito em André, que começou a reclamar da empresa e de como as pessoas eram tratadas, enquanto Luciana ouvia calada até que soltou, “André, ninguém é obrigado a ficar lá, certo? Eu não concordo com você, eu acho que a empresa faz de tudo por seus funcionários, até demais em alguns casos.”

André ficou com o rosto paralisado em um sorriso sarcástico, mas se conteve, talvez no fundo sentisse que precisava daquele emprego. Apesar de formado em educação física e estar sempre fazendo mil planos de ter sua própria academia ou de se tornar um personal trainer de sucesso, ele estava muito acima do peso e fora de forma e não tinha uma personalidade fácil de lidar. Sua aparência era mais de um nerd que nunca fez qualquer exercício em sua vida e tinha uma vida totalmente sedentária e longe de espaços abertos do que a imagem que se tem de alguém que poderia direcionar sua rotina de exercícios e te dar conselhos saudáveis.

Ele virou seu copo de cerveja e disse, “Tá na minha hora.”

Ele pediu para o garçom o valor de sua parte. Luciana retrucou que hoje era por conta dela e que ele não precisava pagar nada, mas ele insistiu. “Não, eu faço questão.” Ele jogou o dinheiro na mesa e mandou um “falou, galera.” Ele olhou para a mesa como se considerasse cumprimentar as pessoas que estavam ali, porém desistiu e saiu andando para fora do restaurante.

Todos ainda estavam bebendo e comendo calados depois do show do André quando o noivo de Thaís chegou até a mesa. Ele animou novamente a mesa e ficaram falando sobre os preparativos e o casamento e em como eles formavam um lindo casal e teriam filhos lindos. Por fim, Thaís também agradeceu pela noite e disse que tinha que ir pois ia ter um dia cheio.

“Quer aproveitar e ir com a gente?”, Thaís perguntou para Priscila.

Ela pensou um pouco, olhou em e respondeu que sim.

“Nem precisamos desviar o caminho”, disse o noivo.

Priscila tinha entrado na empresa por indicação de Thaís, que frequentava a mesma igreja que a mãe de Priscila e, realmente, moravam muito perto.

Thaís e o noivo se despediram e ele disse que ia buscar o carro. Thaís foi junto com ele enquanto Priscila também se despedia de quem ficava. Ela abraçou e beijou Luciana e se despediu de Lucas, que, assim que Priscila começava a se dirigir para a porta, virou para Luciana e disse:

“Acho que deveríamos pedir a conta então, o que acha?”

Priscila parou, “Vocês já vão também?”

“Daqui a pouco, Priscila, eu ainda não terminei meu vinho,” agora olhando para Lucas e disse, “e eu gostaria de alguma companhia, não quero beber sozinha.” Ela abriu um sorriso, dessa vez parecia totalmente sincero.

Ele se sentou e continuou bebendo com ela, enquanto tentava achar uma desculpa para ir embora. Depois de alguns minutos ele apenas se levantou, mas antes que ele dissesse que precisava mesmo ir, ela pegou um dos dedos de sua mão e disse:

“Não, vá, sério. Não quero ficar sozinha.”

“Eu não vou, só vou ao banheiro e já volto”, mentiu.

“Ok.”

No banheiro, vai até a pia e fica um tempo deixando a água escorrer por entre seus dedos. Dessa vez ele não conseguiu evitar e ver seu rosto, seus próprios olhos o fitando de volta, adulto, supostamente responsável. Envelhecer não tinha trazido nenhuma satisfação, apenas algumas, ainda pequenas, marcas bem no meio de sua testa que começavam a se enraizar em cima de seu nariz mas que ficavam mais evidentes na luz fria do banheiro. Essas marcas em alguns anos estariam completamente aparentes e, depois de se aprofundar e se espalhar por todo o rosto, seriam a característica mais marcante de seu rosto, que nunca teve nada que o destacasse.

Ele pensou seriamente em ir embora, sem dizer nada, e largá-la lá. Qual era o ponto de ficar acompanhando sua gerente enquanto ela enche a cara? Por mais que ele tentasse tomar coragem não conseguiu. André voltou a sua mente e, no momento, não queria seguir se seu exemplo. Por fim voltou à mesa e se sentou em vez de ao lado, em frente a Luciana, quieto, pensativo, resignado com seu papel nesse pequeno interlúdio.

Ela ficou olhando para ele e ele, olhando de volta, notou seu rosto corado pelo efeito da bebida. Ela tinha os olhos muito brilhantes e vivos, as narinas levemente dilatadas, seu rosto parecia feito de uma porcelana muito frágil. Ele sentiu-se profundamente triste pela súbita delicadeza que ele notava nela e por um momento achou que lágrimas iriam brotar de seus olhos. Ele começou a sentir um pouco de pânico, queria sumir sem deixar rastros, emoções conflitantes giravam em um turbilhão dentro dele e ele não conseguia mais pensar corretamente. Ele achou que ia desmaiar, até que ela falou com ele.

“Você não gosta muito de mim, né?” disse Luciana.

“Hmm?!”

“Você não gosta muito de mim, né?”

Desprevenido e ainda confuso, ele respondeu: “Não, claro que não, não é isso, eu não tenho problemas com você, de onde você tirou isso?”

“O que é então? A sensação que eu tenho é que você tem um desprezo enorme por mim.”

Ele não estava preparado para isso, não tinha energia para ir além de ser sincero.

“Eu não sei dizer, é nossa vida profissional. Nós entramos no mesmo dia aqui, vindos da mesma universidade, lembra? Acho que o seu sucesso apenas torna meu fracasso mais evidente, sei lá. Eu às vezes não consigo entender por que ainda estou ali.”

“Hmm, acha que eu não mereço a promoção ou que não faço meu trabalho direito?”

“Não, não, não tem nada a ver com você,” ele respirou fundo e continuou, “pelo contrário, acho que você merece até muito mais do que isso pela sua dedicação. Esse é o ponto. Acho que ninguém entra lá pensando em fazer carreira, todo mundo entra como temporário e aquilo é só uma forma de sobrevivência, tudo é para acabar logo e passar, como seu contrato, até que deixa de ser, e aí fica preso lá. No dia que me efetivaram, quando o Jaime anunciou eu fiquei muito feliz. Ele colocava muita energia na gente e, e, não sei, eu me sentia mal em não corresponder, mas não tinha intenção de ficar lá.”

“Hmmm. E você nunca voltou para o seu caminho, então? Seus sonhos? Ainda se lembra o que gostaria de fazer? Acho difícil dizer que está preso lá, mas eu acho que entendi o que quer dizer—”

“Não, nunca voltei. Nesse ponto eu acho que a Vanessa deu sorte, sabe? Eu nunca consegui não me importar o suficiente para deixar tudo para lá, mas também não consigo ser como você, dedicado, pelo menos não nos últimos tempos. O Jaime me empurrava, mas quando ele saiu… Isso me faz sentir que tenho alguma falha de caráter, ou algo assim, é difícil explicar e, não, na verdade eu nem sei mais o que eu queria, se é que um dia eu soube.”

“Ah! A Vanessa. É engraçado como ela e o André sempre conseguem estragar o dia, não é? Era realmente impossível ficar com ela no time, muito por conta de como ela interage com o André. O erro foi segurá-la até o final do contrato. Todo gerente comete erros, acho, queria poder voltar e entender porque o Jaime não deixou o André ir embora.”

Ela bebeu mais um pouco do vinho e continuou, “Você se sente acima do trabalho, faz as coisas somente quando está com vontade e gostaria de ser recompensado por isso e acredita, no fundo, que não teve o que merece na vida. É engraçado seu ponto de vista,” ela colocou a taça vazia mesa e levantou a mão.

“Garçom, por favor, trás mais um vinho aqui? Obrigado.”

Lucas ficou bastante incomodado com o comentário, principalmente porque era provavelmente verdade.

“Olha, eu vim de muito longe pra cá estudar. Eu queria fazer mil coisas, conhecer o mundo, escrever um romance, ficar bilionário fundando uma startup, sei lá, queria mudar o mundo—”

“Um monte de clichês, Lucas, eu esperava mais de você, todo mundo quer fazer coisas extraordinárias até que vem a vida e atrapalha—”

“Deixa eu terminar?”

“Deixo…”

“Aí nada disso aconteceu e eu continuo aqui, sozinho, indo dia após dia trabalhar naquele lugar, resolver problemas tão abstratos que quase não fazem sentido para mim. Pra quê? Pra pagar o aluguel em uma cidade que eu não gosto, comer, comprar coisas para me deixar feliz que nunca me fazem sentir melhor e continuar no mesmo ciclo.”

O garçom colocou um pouco de vinho na taça e ficou esperando que ela concordasse para servir o resto, ela fez que sim com a cabeça. Ele deu a volta para servir Lucas e sugeriu que mudassem para uma mesa para dois se ninguém mais fosse chegar. Eles se mudaram para o canto onde dava para ver a rua através do vidro.

“Acho que é difícil para você entender, sua família é daqui, certo? E você tem um noivo, adora seu trabalho.”

Ela gargalhou um pouco. Ele achou que ela estava realmente bêbada, pois não conseguia se lembrar de a ter visto rindo antes, mesmo nos happy hours do passado ele não se lembrava de a ter visto tomando vinho, o que tinha de diferente hoje?

“O que é engraçado?”

“Você é engraçado, a imagem que fazem da minha vida, sei lá, é um pouco culpa minha, imagino.”

Ela levantou a mão em frente ao rosto com a palma virada para ela, para que o anel ficasse visível, “você se refere a isso?”, ela perguntou, puxando o anel de noivado com os dedos da outra mão começando a removê-lo.

“Sim, claro”, ele respondeu, “você parece ter sua vida toda planejada.”

Ela tirou o anel e o colocou na mesa.

“Eu tive um noivo, mas já faz uns três anos que terminamos, eu nunca tirei o anel. Acho que no fundo achava que ele ia voltar, ou gostava da imagem de noiva. Na verdade ele já se casou com outra pessoa e tem um filho pequeno e eu ainda hoje fico vendo sua vida perfeita nas redes sociais, apesar de não responder as suas tentativas de falar comigo. Ele chegou a me mandar fotos de seu órgão sexual como se aquilo fosse um convite.”

Ele ficou sem resposta.

“Nós terminamos quando minha mãe começou a ficar doente. Ela tinha uma ferida na boca que era um câncer na boca. Ela teve que parar de trabalhar e eu tive que ajudá-la em casa, com as despesas, com tudo. Como ela não tinha mais renda e meu pai sumiu com outra mulher quando eu era criança eu realmente precisava me dedicar a esse emprego.”

“Eu… eu não sabia.”

“Ninguém sabia, eu não sou o tipo de pessoa que abre sua vida por aí, concorda?”

Ele não respondeu e perguntou, “E como ela está?”

“Ela faleceu tá fazendo quinze dias hoje. Ela chegou a se curar do câncer inicial, mas a doença acabou voltando. Ela desenvolveu leucemia, recentemente, ela foi fazer uns exames e não saiu do mais do hospital. Lembra as férias atrasadas que disse que eu precisava tirar e que você cobriu umas coisas para mim? Eu saí para cuidar de tudo. A Vilma me deu cobertura para que não precisasse contar para ninguém. Ainda não caiu a ficha.”

Lucas olhou para o copo e ficou calado por um tempo, tentando tomar coragem para olhar para ela. Os olhos estavam cheios de lágrimas e começavam a ficar como ele os acostumou a ver de manhã, mas agora aqueles mesmos olhos tinham uma profundidade insondável, o verde apenas a superfície de um oceano agitado.

Ela pegou o anel e o colocou de volta. Pegou também a taça de vinho e a completou novamente e bebeu o vinho olhando através de seu reflexo no vidro da janela, vendo o movimento dos carros e pessoas através do vidro.

“Parou de chover.”

“É, parou…”

“Está tendo uma feira noturna aqui na rua de baixo, não deve ter ninguém por causa da chuva, quer dar uma volta?”

Ele respondeu que sim. Naquele instante não seria capaz de negar nada para ela.

A chuva tinha dado uma trégua e eles caminhavam lado a lado, ambos calados. A feira ficava quatro quarteirões dali e deveria ter uma banda, food trucks e itens diversos a venda segundo ela viu em seu celular, porém, quando chegaram à feira as poucas barracas já estavam sendo desmontadas.

“Que pena”, ela disse, “eu queria comprar alguma coisa. Qualquer coisa,” ela olhou em volta e viu um caminhão com um lúpulo verde desenhado.

“Talvez tomar um cerveja artesanal.”

Lucas finalmente sorriu e disse: “Cerveja artesanal?”

“É!”

“Haha, você não parece o tipo de pessoa que gosta de cerveja artesanal, e já tá tomando vinho hoje, não sei se é uma boa idéia misturar.”

“Eu acho que não pareço muita coisa para você…”

Ele achou que ela tinha se irritado e tentou corrigir.

“Não, não é isso, Luciana, sei lá, você é… diferente… diferente do que eu imaginava ou talvez seja mais parecida com o que eu imaginava quando te conheci.”

“Só está piorando”, ela disse sorrindo, agora parecendo se divertir com o incômodo de Lucas.

Eles andaram até a esquina e pararam.

“Acho que nossa noite termina aqui, não?”, ele perguntou.

“É, parece”, ela olhou para cima e continuou: “queria poder ver a lua, ou que voltasse a chover, queria que acontecesse alguma coisa.”

Antes que ele respondesse algo, eles ouviram um cachorro chorando e vozes. O som vinha de um beco logo adiante de onde estavam. Os dois imediatamente tomaram a mesma decisão de ir lá olhar o que estava acontecendo. Quando viraram a esquina tinham dois moleques e uma cachorro, um deles segurava um pedaço de pau.

“Vamos lá, termina logo, você não tem coragem!”, disse um deles.

“Claro que eu tenho.”

“Então vai! Depois disso você faz parte do clube.”

O cachorro estava mancando, chorando e ganindo muito enquanto se arrastava para tentar se proteger atrás de algumas caixas que estavam jogadas ali.

“Ei! Parem com isso!”, gritou Lucas. Ele ficou furioso com a cena e sem pensar foi em direção do que estava com o pedaço de pau. A primeira reação deles foi correr, ele se virou para trás e jogou o bastão em Lucas, acertando seu seu rosto bem acima do olho.

“Filho da puta”, ele resmungou segurando o rosto e se agachando. Quando ele conseguiu enxergar novamente eles tinham desaparecido e Luciana estava tentando acalmar o cachorro.

“Você está bem, Lucas?”

“Estou, pegou de raspão, mas tá doendo um bocado.”

O animal era um vira-latas branco com manchas pretas e sua perna estava toda suja de sangue. Parecia ser quase um filhote mas pelo seu estado estava abandonado fazia um bom tempo.

“O que nós vamos fazer com ele?” Lucas perguntou.

“Eu tenho um casal de conhecidos que tem uma clínica veterinária. Eu acho melhor a gente dar um pulo lá.”

“Tá bom, eu concordo.”

“Como está seu olho? Quer ir no hospital ver isso antes?”

“Não foi nada demais, amanhã vai estar inchado, imagino, mas nem saiu sangue. Eu não consigo acreditar que pessoas façam esse tipo de coisa com bichos. Uma das coisas que mais sinto falta vivendo aqui nesse lugar é de ter espaço para ter um cachorro.”

“É realmente muito difícil de acreditar, que loucura. Sabe, eu nunca tive um bicho em casa por causa da minha mãe, mas sempre tive uma queda por animais.”

Eles pegaram um táxi e foram até a clínica. Martinha, a dona do lugar estava no plantão naquele dia. Ela levou o cachorro para a emergência e desapareceu, deixando os dois sentados ali esperando um em frente ao outro.

“Eu acho que nossos nomes tem a mesma origem, não?”, ela disse.

“Não sei, têm?”

“Acho que têm sim. Lux, luz em grego.”

“Combina com você.”

“Bom, pelo menos do meu nome eu tenho certeza.”

Os olhos dela pareciam tão vivos e ela parecia tão feliz. Ele achou os cabelos escuros dela caindo sobre o rosto e os ombros a coisa mais linda que ele já viu. Ele se levantou e se sentou do lado dela.

“Luz, é engraçado, não me sinto como uma pessoa iluminada, parece até irônico que tenham me dado esse nome”, ele disse.

Ela se aproximou como se quisesse ver o olho dele. “Deixa eu dar uma olhada”, e continuou, “vou fazer com que algo aconteça hoje, ok?”

Ela tirou o próprio cabelo da frente do rosto e se aproximou um pouco maia, até que ele entendeu. Ficaram se beijando por muito tempo, até que Martinha voltou com notícias sobre o cachorro.

“Tenho boas notícias, ele vai ficar bem, teve uma fratura na perna e vai ter que ficar aqui em observação porque também bateu a cabeça e a orelha está sangrando, mas dos males o menor, não acho que é muito grave e ele teve sorte de que vocês apareceram. Algum de vocês vai ficar responsável por ele?”

“Eu fico”, os dois responderam juntos.

“Talvez eu deva ficar, eu moro em uma casa, tem mais espaço,” ela completou.

Mesmo dizendo isso ela pareceu hesitar um pouco como se não tivesse certeza. Ele, percebendo isso, disse. “Verdade, bom, nós dois ficamos então, depois decidimos o que fazer.”

Ela concordou com a cabeça.

Martinha pegou alguns dados deles e falaram sobre o valor inicial que eles dividiram. Por fim eles pediram outro táxi e, no banco de trás, se beijaram novamente durante o caminho, até chegarem na casa. Desceram do carro e ela o abraçou e deram um beijo de despedida.

“Eu preciso mesmo ir dormir, amanhã vai ser um dia cheio”, ela disse, “não quer ficar e dormir aqui?”

“Não quero estragar essa noite, foi tudo muito especial para mim.”

Luciana não respondeu nada, apenas ficou olhando nos olhos dele com os olhos muito abertos e um sorriso que era um misto de espano e preocupação. Ela enfim se virou e ele esperou que ela entrasse para voltar para o táxi. Pensou nela o caminho todo arrependido de não ter ficado, em como ela estava linda. Lá fora a chuva começou a cair novamente enquanto o táxi o levava para casa através de ruas vazias, o som das rodas ecoando pelas paredes dos prédios.

IV

Lucas chegou em casa e ficou olhando a chuva pela janela, os poucos carros passando lá embaixo, os feixes de luz deixando visíveis a chuva que agora tinha ficado constante. Não conseguiria dormir mesmo que tentasse, não conseguia tirá-la de sua cabeça. Ele ficou esperando ansioso a hora de se arrumar e ir para o trabalho. Sentia uma vontade enorme de fazer uma loucura, de gritar e de sair correndo na chuva. Apenas ligou a televisão e voltou a procurar informações sobre a série que tinha visto na noite anterior e que não se importava.

De manhã, depois de se arrumar com cuidado e tentar disfarçar ao máximo o fato de não ter dormido, ele saiu e foi para o trabalho, sem enxergar o caminho, só voltou a sentir algo, seu coração batendo muito forte, quando estava chegando em sua mesa.

Luciana estava em pé, ao lado de Priscila e, portanto, em frente a sua mesa, ajudando com um caso. Ele parou e ficou admirando seus cabelos caindo sobre os ombros. Seu coração agora parecia que ia sair pela boca até que, de repente, ele parou um instante quando ela levou a mão ao pescoço por um instante, em câmera lenta.

Ela olhou para trás e sorriu o sorriso mais perfeito que ele já tinha visto e ele notou que seus olhos tinham um brilho que ele nunca tinha reparado antes.

“Bom dia, Lucas, tudo bem?”

“Oi, tudo bem.”

“Precisamos conversar, eu tenho uma notícia para você que, acho, vai gostar, me acompanha depois que eu terminar aqui?”

“Claro”

“Quer pegar um café? Ou podemos ir direto para a sala da Vilma?”

“Direto.”

Ele queria abraçá-la e beijá-la novamente, mas também não queria ficar sozinho com ela. Ele sentiu que seu queixo tremia um pouco e achou que não iria conseguir articular nada coerente se tentasse dizer algo sobre o que estava sentindo.

Vilma estava sentada em sua mesa digitando freneticamente em seu computador, usando apenas dois dedos de forma extremamente eficiente.

Ela levantou a mão e disse, ‘Só um minuto… pronto… enviei…”, e antes de olhar para eles ela pegou o celular e deu uma olhada como se checasse o tempo para cronometrar o quanto aquela conversa tomaria de seu dia. Ela tirou os óculos de leitura que estavam na ponta de seu nariz e colocou na mesa, depois fez um gesto para que sentassem.

Ela era uma figura imponente com seu tamanho, ombros largos e rosto severo e, mesmo sentada, ela conseguia impor sua presença. Ela olhou profundamente nos olhos de Luciana e depois de Lucas e começou.

“Então, Lucas, você já está com a gente faz um bom tempo e tanto o Jaime quanto a Luciana gostam muito da forma como você trabalha com os casos, do seu conhecimento sobre os processos e em como você lida com o time, sendo, de certa forma, uma das figuras de liderança ali.”

Ele conseguia voltar a se concentrar no que estava acontecendo e recuperava aos poucos seu controle.

“Nós queríamos ter conversado com você antes e que isso fosse anunciado ontem junto com o resto das comunicações, mas eu esperava um resposta da Luciana e ela só se decidiu hoje, ela já te contou?”

“Não,” respondeu Luciana.

Ele sentiu seus pés em cima da linha amarela.

“Fato é que, a Luciana aceitou uma proposta…”

Ele sentiu a multidão atrás dele e o zumbido do trem que chegava na estação deslocando o ar e tomando seu lugar.

“Uma proposta para assumir uma nova equipe em um novo escritório que estamos montando na Ásia, o que é uma oportunidade incrível para ela.”

Ele ficou tentando entender o motivo de ser a Vilma a dizer isso para ele.

“Nesse caso, vamos precisar de um novo team leader, e pensamos em você.”

Ela fez uma pausa para ver qual era a expressão no rosto de Lucas.

“O que acha? Se aceitar pode ser uma oportunidade e tanto para você. Queremos colocar você como líder de equipe, agora inicialmente vai ser um teste, então vai ser um movimento lateral, sem aumento de salário, mas é um voto de confiança. Precisamos disso, dessa resposta, para agora, pois a Luciana já deveria ter assumido essa posição lá.”

Sente o empurrão, o trem e a escuridão.

“Não precisa me responder agora, não imediatamente,” ela continuou, “mas precisa de uma resposta até o final do dia, então pode pensar um pouco.”

Ele se levantou e ficou esperando que Luciana levantasse também, mas ela não o fez.

“Pode ir, Lucas, a Luciana vai ficar aqui comigo para revisar umas coisas, pensa e me avise até o final do dia.”

Ele não sentia que conseguiria trabalhar e foi pegar um café. André, infelizmente, estava parado na máquina, mas quando o percebeu já era tarde demais para evitar.

“Como foi a tortura ontem? Fiquei sabendo que ficou sozinho lá com ela, conseguiu dar um jeito no problema dela? Haha.”

“Qual problema, André?”

André faz cara de supresa, arqueia as sobrancelhas e faz um sorriso malicioso.

“Ora, qual problema, você sabe muito bem qual problema. Ontem quando eu fui embora eu tava apostando que ela ia querer terminar o dia fodendo mais alguém.”

Lucas concentrou-se para compreender as funções dos botões da máquina de café até que conseguiu achar a sequência para produzir um expresso. Ele sentia seu rosto queimando com o comentário, a raiva tomando conta, porém, talvez por isso mesmo, não respondeu ao comentário de André, apenas tentou ignorá-lo. André, entretanto, nunca soube o momento de parar.

“Nossa, foi ruim mesmo, hein? Pelo jeito ela acabou com você. Ah, meu, não fica mal não, alguém tinha que ir lá, herói, foi melhor para todo mundo, quem sabe ela relaxa.”

Ficou olhando aquela figura patética, que se sentia no direito de julgar a tudo e todos ao seu redor.

“André, você é um imbecil, me deixa, fica quieto cara.”

Lucas saiu andando com o café na mão ouvindo a gargalhada do André atrás dele. Seu primeiro impulso tinha sido jogar o café quente nele, mas tinha chegado a conclusão que tinam coisas piores que poderia fazer.

Ele tinha visto Luciana no final da tarde quando fizeram o anúncio de sua partida. Ainda não sabia como iriam anunciá-lo como o novo líder da equipe. A maioria das pessoas do time ficaram positivamente surpresa e desejaram sorte para ela. André olhou para ele com um olhar atravessado que era uma continuação de sua piada de antes no café, porém ele não teve coragem de falar nada. Ele deu parabéns a distância e ela, também sem graça, não tentou se aproximar. Depois do anúncio ele foi até o banheiro para esconder as lágrimas.

Lucas, no último minuto de trabalho daquele dia escreveu um email e disse que aceitava. Mesmo depois do horário Vilma respondeu: como ele conhecia a equipe e os processos a transição seria feita imediatamente e aquela seria a última vez que veria Luciana, Ela tinha tirado uns dias para arrumar suas coisas e depois disso iria embarcar diretamente para a Malásia.

Mais tarde, em sua cama, ele novamente chorou até dormir.

O sábado chegou e era o dia de buscar o cachorro e seu celular. Decidiu evitar o metrô e foi andando, o que demoraria um bocado, mas ainda chegaria a tempo de pegar as lojas abertas acordou bem cedo. Estava com vontade de caminhar.

Quando ele chegou na clínica, Martinha disse que o cachorro estava ótimo e que era um muito fofo. Ela novamente comentou que ele tinha tido muita sorte e a perna se recuperaria muito rápido pois ainda era jovem. Ela trouxe ele e ele o pegou no colo.

“Leva essas coisas aqui, é um kit básico de sobrevivência, tem ração, uma roupinha e outras coisinhas, consegue carregar?”

Lucas pegou as coisas e colocou na mochila. Ele notou que ele tinha uma coleira nova e pendurado na coleira tinha uma bolsinha.

“O que é isso?”

“A Luciana, antes de embarcar, passou aqui ontem para pagar o que estava pendente. Ela contou que estava indo embora do país. Ela deixou a coleira e disse que você deveria vir aqui buscar ele.”

“Entendi.”

Ele pegou o cachorro no colo que lambeu seu rosto e, dessa vez, ele chamou um táxi pois iria ter que carregá-lo pois ele ainda não podia andar. Ele passou na loja para retirar seu celular e, sem nem mesmo testá-lo, ele o enfiou no bolso e foi para casa.

O cachorro ficou andando pelo apartamento e cheirando tudo enquanto ele recolhia as coisas espelhadas e limpava um pouco. Ele colocou água e a ração que tinha trazido consigo da clínica e colocou o cartão de volta no celular e o colocou para carregar. Como era hábito, ligou a televisão, não para ver algo mas para não se sentir sozinho. O cachorro acabou de comer e ele o pegou e colocou em seu colo e ficou fazendo carinho nele que retribuiu abanando o rabo. Ele o colocou na cama e ficou olhando para ele tentando imaginar um nome para ele.

“Lux! Vou te chamar de Lux!”

Ele abriu o olho e pareceu concordar. Ele puxou a bolsinha que estava presa na coleira e abriu para ver o que tinha dentro. Era o anel de Luciana. Ele o colocou na palma da mão e ficou olhando para ele, tentando entender o que aquilo significava. Ele tentava racionalizar de muitas formas o que tinha acontecido mas pensar nela ainda doía.

O celular ligou sozinho e fez um barulho de notificação. Ele pegou para olhar o que era e a notificação era uma mensagem de Luciana, do dia anterior:

Obrigada, Lucas!

Ele olhou novamente para a mensagem e não sabia como respondê-la, não sentia que precisasse. O anel cabia em seu dedo mindinho, colocar o anel que ela carregou tanto tempo e fez sentir sua presença novamente, como se pudesse abraça-la. Começou a chorar, primeiro baixinho e depois descontroladamente. Ficou assim por um tempo, até que Lux colocou a cabeça em seu colo e ele se acalmou, as lágrimas ainda brotavam, porém, não eram lágrimas de tristeza.