Sarjeta

Durmo no relento, abraçando a sarjeta, minha mais antiga e confiável companheira. Começo o dia com seu beijo e digo adeus e até logo. É em frente uma igreja. Bancos e igrejas são bons porque ficam vazios de noite e ninguém te incomoda.

Como um animal eu vasculho meu território a procura de coisas que ainda tenham algum valor. Para mim. Para os outros. Alguém deixou em um banco o resto de um Milk Shake. Sento ali do lado e fico esperando para ver se não voltam pois mesmo algo que parece abandonado quando tomado por alguém vil como eu sou pode gerar violência.Eu sei, já senti muitas vezes. É por algo assim banal que quase não enxergo do meu olho direito. Agora ando pelas ruas sempre virando a esquerda. É um jogo que faço. É possível andar todo meu terrítório sem virar nenhuma única vez para a direita. Assim nenhum ataque por vir desapercebido em uma esquina.

Pego o Milk Shake e me afasto. Morango. Gostoso. Ainda gelado. Hmmm. Plástico infelizmente não tem valor. Jogo em uma lixeira, mas não sem antes olhar se não há nada ali, uma latinha talvez. Não havia.

Fome, Fome; Fome.

Mas pelo menos não tá frio.

Fome… Pára de roncar!

Não pára.

A moça da loja de sapatos vai levar o lixo e me vê lá esperando. Ela faz um gesto pra esperar e espero. Ela volta com o resto de sua marmita. Ela já fez isso antes e me sinto culpado de ter ficado ali. Não tinha carne mas tava bom, bom.

Fico ali um pouco e faço uma flor de latinha. Uma latinha a menos, mas um presente pra ela. Deixo na porta, espero que ela ache. Não fica tão bom sem uma tesoura, mas me deixaram sem quando me levaram. Me deixaram sem nada. Sem nada mesmo. Nem cabelo e barba deixaram. Mataram meus companheiros de vida. Parasitas eles chamam. Como me chamam também. Parasitas.

Viro a esquerda, com mão na parede. A textura me deixa feliz. Um homem me diz para tirar a mão porque está sujando. Assustado eu tento fugir, coração na boca. Ele vem atrás me xingando. Eu corro com meu saco de
latinhas e um policial vem. Não consigo falar, não deixam eu falar. O policial pega meu saco e joga longe e ameaça bater. Eu tento ir na direção do saco e ele me empurra e eu caio. Riem. Todos riem. Sangue escorre no meu olho bom. Sair dali é muito difícil, sem enxergar, sem colocar as mãos na parede, sem tudo que eu tinha naquele dia. Só consigo me afastar das risadas.

Um carro freia e me xinga, só guardo a palavra sujo. Sujo. O dia acaba e meu estômago doendo. De fome, de raiva, de medo. O dia acaba com a sarjeta quente me consolando enquanto eu chorava baixinho, cheguei cedo e as pessoas ainda saindo do culto passavam longe de mim, com medo, com nojo, com a certeza de que é assim porque Ele quis.

Anacronismo

A dificuldade de andar pelas ruas da cidade é interrompida por um cestinho colorido na beira do caminho e pelas vozes infantis cantando em uma língua desconhecida. As crianças são indígenas e se vestem parcialmente como tal, descalços, moletom cinza, camisetas de times de futebol mas também pintura no rosto e um cocar.


Um mulher indígena sentada com uma criança no peito dá o sinal com a cabeça quando o grupo de turistas se aproxima para que as quatro crianças que estão por ali brincando se juntem e entrem no personagem. Elas correm para a parede e começam a tocar e cantar, mecanicamente, sem nenhum entusiasmo músicas de sua cultura.


Nesse momento me senti mal pelo anacronismo de Paraty. De certa forma, esses anacronismos são o charme da cidade que os carrega até no nome. O fato de que a cidade tenha ficado abandonada pela perda da importância econômica e se descolado do presente para depois passar a ser obrigada a se conservar para deleite daqueles que ali passam ou são atraídos com sua exoticidade é um espelho assimétrico do mesmo fenômeno.


As crianças faziam de tudo para captar a atenção das pessoas e esperavam ansiosas por algum dinheiro ser colocado no cestinho colorido, não escondendo a decepção quando as pessoas apenas tiravam uma foto e continuavam seu caminho por entre as casas coloridas todas transformadas em estabelecimentos comerciais, estavam ali para ver e registrar o exótico e não tinham tempo a perder.


Eu estava com minha câmera na mão e pronto para fazer o mesmo, mas essa epifania me impediu de tirar a foto, a sensação que me veio foi que eu apenas roubaria algo e estaria compartilhando da mesma atitude que os impedem de retomar a vida de seus antepassados e mudar de acordo com suas regras e cultura.


O que via ali eram crianças do meio, vivendo em um limbo em que não estão nem plenamente inseridas e nem totalmente abandonadas, carregando em si um passado glorioso e uma cultura riquíssima, porém ali transformadas em caricatura, em algo conservado para atrair a curiosidade dos transeuntes e turistas trocando seu anacronismo por algum dinheiro.
Para deixar claro, não sou contra o turismo ou cidades históricas conservadas.

Também não acredito que indígenas tem que ser totalmente assimilados como algumas pessoas defendem, acredito que todos têm direito à cultura e que não cabe a nós interferência, devem ser livres para escolher seu caminho. A minha tristeza é ver essas crianças trocando fragmentos de sua cultura por dinheiro nas ruas enquanto poderiam estar vivendo em suas culturas de forma plena e digna, de acordo com seus princípios, história e cultura.